Metodologia


O Que é Pesquisa-ação?

Fundamentos e Teoria
A pesquisa-ação não é apenas um conjunto de métodos, mas uma orientação filosófica e política que desafia o paradigma tradicional da ciência positivista. Ela busca romper a dicotomia entre o “sujeito que conhece” (pesquisador acadêmico) e o “objeto a ser conhecido” (comunidade), transformando a produção de conhecimento em um ato coletivo e emancipatório.

Os Níveis de Participação: A “Escada” da Investigação
A participação não é um conceito binário. Ela ocorre em diferentes graus de intensidade e poder de decisão. Baseando-se em modelos clássicos, como o de Sherry Arnstein, a pesquisa-ação busca atingir os níveis mais altos de engajamento.

A seguir as etapas em um grau crescente de participação:

  1. Participação Nominal/Informação: a comunidade é apenas informada sobre a pesquisa ou fornece dados sem influenciar o desenho do estudo.
  2. Consulta: pesquisadores buscam opiniões da comunidade, mas retêm todo o poder de decisão sobre o que será feito com as informações.
  3. Colaboração: há uma parceria real onde a comunidade influencia partes específicas do processo, como a coleta de dados.
  4. Controle Comunitário/Co-criação: o nível almejado pela pesquisa participativa, onde a comunidade e os pesquisadores acadêmicos compartilham o poder de decisão em todas as etapas — da definição do problema à análise e divulgação dos resultados.

A pesquisa-ação almeja o nível mais alto de engajamento e participação, garantindo em todas as etapas a participação e a co-criação com os pesquisadores comunitários.


Critérios para a Pesquisa Comunitária Participativa

Barbara Israel e colaboradores definiram os princípios fundamentais que caracterizam uma pesquisa como genuinamente baseada na comunidade. Estes critérios servem como um “guia ético” para os pesquisadores:

  • A comunidade como unidade de identidade: reconhecer e fortalecer os laços geográficos, culturais e de interesse comum.
  • Foco nos ativos e forças: identificar os recursos e competências já existentes no território, em vez de focar apenas em carências.
  • Parceria equitativa/horizontalidade: envolver os membros da comunidade em todas as fases da pesquisa, promovendo uma transferência real de poder e saber.
  • Integração entre conhecimento e ação: o objetivo final não é apenas publicar um artigo, mas gerar mudanças sociais concretas.
  • Processo cíclico e interativo: a pesquisa é um ciclo contínuo de planejar, agir, observar e refletir.
  • Disseminação para todos: os resultados devem retornar à comunidade em linguagem acessível e o crédito (coautoria) deve ser compartilhado.

Pilares Teóricos e Epistemológicos

O Sujeito “Sentipensante” (Orlando Fals Borda)
O método utilizado pela pesquisa, criado por Fals Borda, é o da Investigação-ação-participativa (IAP) e se baseia na premissa de que o conhecimento é construído por seres humanos integrais, que não separam a razão do sentimento. O pesquisador é um “ser no mundo”, com compromisso ético e político.

Partilha de saberes (Paulo Freire)
Seguindo o método de Paulo Freire, “onde quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”, busca-se a construção coletiva de um conhecimento que reúna o saber acadêmico e o saber popular num relacionamento horizontal entre pesquisadores profissionais e comunitários.

Epistemologias do Sul e Decolonialidade
A pesquisa propõe um “giro decolonial”, questionando o silenciamento das sabedorias do Sul Global por uma ciência eurocentrada, buscando combater o “epistemicídio” — a destruição de saberes tradicionais e ancestrais — através da valorização da sabedoria popular.

Interseccionalidade e intersetorialidade
A metodologia exige uma análise das múltiplas camadas de opressão que atravessam os sujeitos, incluindo raça, gênero, classe e sexualidade, como determinantes sociais da saúde e da produção de saber. Aproveita-se de todos os recursos disponíveis no território para além do campo sanitário e da saúde mental.

Fenomenologia de Frantz Fanon
A pesquisa parte da fenomenologia de Frantz Fanon, articulando-se com outros pensadores dos continentes do Sul, para compreender o sofrimento mental e suas consequências dentro de uma perspectiva sociogênica em que a história de opressão colonial e sua reatualização através da colonialidade do poder e do saber deixam marcas profundas na alma dos sujeitos colonizados e se organizam em linguagens que impactam processos subjetivos e políticos, perpetuando o sofrimento e a opressão.


Ciclo Metodológico - Rede Entrepares

Diferente da pesquisa linear, a investigação-ação-participativa opera em espiral:

Etapa Ação Participativa
Identificação A comunidade define quais problemas são prioritários para investigação.
Desenho Co-criação de instrumentos (roteiros de entrevista, mapas) adequados à realidade local.
Ação/Coleta Membros da comunidade atuam como pesquisadores de campo (diagnóstico rápido participativo).
Reflexão/Análise Os dados são interpretados coletivamente, somando o saber acadêmico à experiência de vida e sabedoria popular.
Devolutiva Resultados úteis para a comunidade: websites, cartilhas, seminários, novos dispositivos e políticas públicas.

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