Ponte sobre o Oceano: Como a Ciência Popular pode transformar a saúde mental em Moçambique.
Sabia que, em países de baixo e médio rendimento, cerca de 70% das pessoas com esquizofrenia não recebem tratamento adequado?
Em Moçambique, este cenário é agravado pela escassez de especialistas e pelas enormes distâncias entre as comunidades rurais e os centros de saúde. Mas e se a resposta para fechar este abismo não estivesse apenas nos grandes hospitais, mas sim no saber que circula nas aldeias e no chão da comunidade?
No projecto Entrepares, a parceria entre o Brasil e Moçambique (através da Universidade Eduardo Mondlane) busca construir uma Saúde Mental Participativa que valoriza quem está na linha da frente. Para entender como isso é possível, mergulhamos nas investigações de Dirceu Mabunda, que trazem lições fundamentais sobre o cuidado em terras moçambicanas.
Os APEs: O Coração do Cuidado Rural
Desde 1978, Moçambique conta com os Agentes Polivalentes Elementares (APEs). Eles são moradores das próprias comunidades, formados para promover saúde onde o médico muitas vezes não chega. Embora o foco inicial tenha sido em doenças como malária e diarreia, as investigações de Mabunda revelam que os APEs possuem uma atitude positiva e prontidão para assumir o cuidado em saúde mental, desde que recebam o suporte adequado.
A Ciência da Adaptação: Falando a "Língua da Vida"
Uma das maiores contribuições de Mabunda é a defesa da adaptação cultural. Não basta "importar" modelos do Norte Global; é preciso que as intervenções façam sentido para quem vive no território. Ele destaca elementos essenciais para essa tradução:
- Linguagem e Metáforas: é fundamental usar termos locais, como o conceito de kufungisisa (pensar demais), para descrever o sofrimento mental de forma que a comunidade compreenda e se identifique.
- Conceitos e Contexto: a intervenção deve considerar a interdependência entre os indivíduos e os factores económicos, como o alto custo de transporte que impede famílias de buscarem centros de tratamento em Magude ou Maputo.
- Pessoas e Parcerias: o sucesso do cuidado depende de alianças horizontais entre os profissionais de saúde, as famílias e os curandeiros tradicionais.
Superando Barreiras
Para que a mudança aconteça, Mabunda reforça o que trava e o que impulsiona a saúde mental:
- Capacidade: a maior barreira é a falta de formação específica em saúde mental para os agentes locais.
- Oportunidade: o estigma e os mitos que associam a psicose apenas à feitiçaria podem levar ao isolamento ou abuso dos pacientes pela própria família. Os agentes podem ser facilitadores para que as famílias encontrem um caminho de cuidado e assistência, além de oferecerem suporte comunitário.
- Motivação: apesar das dificuldades e da pobreza, os trabalhadores comunitários sentem-se motivados pelo senso de pertença à comunidade e capazes de despertar o interesse na comunidade e entre as famílias para aumentar o conhecimento sobre a psicose: “Esta pessoa pertence à comunidade, é alguém como nós”.
O Futuro: Task-shifting e Tecnologia
A investigação participativa propõe o que chamamos de task-shifting: a transferência de tarefas específicas de especialistas para trabalhadores comunitários capacitados. Segundo Mabunda, envolver os agentes locais não apenas na execução, mas na definição da aplicabilidade da investigação, é o que garante que ela seja sustentável.
Além disso, o uso de tecnologias móveis (mHealth) surge como uma ferramenta promissora para a formação e supervisão desses agentes em áreas remotas.
Construir uma Ciência Popular em Moçambique significa reconhecer que o saber técnico da universidade só ganha força quando se une à experiência de vida dos APEs e das famílias. Ao transformarmos o sofrimento numa ferramenta de activismo e mudança social, estamos a descolonizar o cuidado e a garantir que ninguém seja deixado para trás.
– Referências
- Mabunda D, Oliveira D, Sidat M, Cavalcanti MT, Cumbe V, Mandlate F, Wainberg M, Cournos F, de Jesus Mari J. Cultural adaptation of psychological interventions for people with mental disorders delivered by lay health workers in Africa: scoping review and expert consultation. Int J Ment Health Syst. 2022 Feb 15;16(1):14.
- Mabunda D, Oliveira D, Sidat M, Cournos F, Wainberg M, Mari JJ. Perceptions of Community Health Workers (CHW) on barriers and enablers to care for people with psychosis in rural Mozambique: findings of a focus group discussion study using the Capability, Opportunity, Motivation and Behaviour framework (COM-B framework). Hum Resour Health. 2022 May 19;20(1):44.



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