{"id":229739,"date":"2026-04-01T11:18:06","date_gmt":"2026-04-01T14:18:06","guid":{"rendered":"https:\/\/redeentrepares.com\/?p=229739"},"modified":"2026-04-06T21:25:52","modified_gmt":"2026-04-07T00:25:52","slug":"saude-mental-e-decolonialidade-por-uma-luta-antimanicolonial-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/saude-mental-e-decolonialidade-por-uma-luta-antimanicolonial-no-brasil\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade Mental e Decolonialidade: Por uma Luta Antimanicolonial no Brasil."},"content":{"rendered":"<p>O pesquisador Emiliano Camargo David nos oferece uma resposta contundente: todo manic\u00f4mio brasileiro guarda em sua g\u00eanese a heran\u00e7a racista e colonial dos navios negreiros. Para ele, o racismo n\u00e3o \u00e9 um detalhe, mas o motor que organizou historicamente os processos de exclus\u00e3o em nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>O Conceito de Manicolonialidade<\/strong><\/p>\n<p>David prop\u00f5e o termo \u201cmanicolonialidade\u201d para descrever como a psiquiatriza\u00e7\u00e3o da loucura e o racismo operam juntos na colonialidade. Historicamente, o Ocidente n\u00e3o criou as figuras do \u201clouco\u201d e do \u201cnegro\u201d de forma desassociada; ambas foram fixadas no dom\u00ednio da desraz\u00e3o para justificar sua exclus\u00e3o e controle. No Brasil, express\u00f5es como &#8220;crioulo doido&#8221; e \u201cnega maluca\u201d manifestam essa perversa uni\u00e3o que patologiza corpos negros e racializa a sa\u00fade mental.<\/p>\n<p>Para enfrentar essa estrutura, David delineia tr\u00eas &#8220;ideias-for\u00e7a&#8221; para radicalizar o cuidado:<\/p>\n<p><strong>1. Desnortear: Fugindo da Raz\u00e3o Euroc\u00eantrica<\/strong><\/p>\n<p>Muitas vezes, usu\u00e1rios da sa\u00fade mental dizem estar &#8220;desnorteados&#8221;. David ressignifica esse termo como uma necessidade pol\u00edtica: precisamos nos afastar do &#8220;Norte&#8221; como centro \u00fanico de saber. Em di\u00e1logo com Frantz Fanon e Achille Mbembe, o desnortear \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o da loucura e da negritude como formas de vida, rompendo com a subordina\u00e7\u00e3o \u00e0 norma branca e racional ocidental. \u00c9 reconhecer que a ci\u00eancia m\u00e9dica, em contextos coloniais, muitas vezes atuou como ferramenta de humilha\u00e7\u00e3o e nega\u00e7\u00e3o da humanidade alheia. <\/p>\n<p>A desconsidera\u00e7\u00e3o das artes e dos of\u00edcios de cuidado afrodiasp\u00f3rico, que sobreviveram ao longo de s\u00e9culos e constitui instrumento de luta, resist\u00eancia e cura, s\u00e3o raramente levados em conta na grande maioria das pol\u00edticas de sa\u00fade brasileira.<\/p>\n<p><strong>2. Antimanicolonial: O Fomento da Imagina\u00e7\u00e3o Diasp\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p>A luta antimanicolonial prop\u00f5e que o combate ao manic\u00f4mio e o combate ao racismo s\u00e3o indissoci\u00e1veis. Inspirado em autores como <strong>Paul Gilroy<\/strong>, <strong>L\u00e9lia Gonzalez<\/strong> e <strong>\u00c9douard Glissant<\/strong>, David sugere que o cuidado deve fomentar o exerc\u00edcio livre e contracultural de &#8220;imaginar di\u00e1sporas&#8221; para uma Rela\u00e7\u00e3o que nos desloque da \u201cperspectiva colonial de conquistar para a pespectiva descolonial de conhecer\u201d. Isso significa reconhecer a pot\u00eancia da experi\u00eancia transatl\u00e2ntica e a &#8220;amefricanidade&#8221; como fontes de resist\u00eancia e cria\u00e7\u00e3o de novas subjetividades que buscam a humanidade roubada pelo racismo.<\/p>\n<p><strong>3. Aquilombar: Uma \u00c9tica da Liberdade e do Cuidado<\/strong><\/p>\n<p>O aquilombamento \u00e9 apresentado como uma pr\u00e1xis libert\u00e1ria na sa\u00fade mental. Beber da fonte do &#8220;quilombismo&#8221; de Abdias do Nascimento e da &#8220;quilombagem&#8221; de Cl\u00f3vis Moura significa entender o quilombo n\u00e3o como algo fixo no passado, mas como uma met\u00e1fora viva para radicalizar as rela\u00e7\u00f5es na diferen\u00e7a.<\/p>\n<p>O Devir Quilomba: apoiando-se em Maril\u00e9a de Almeida e Beatriz Nascimento, David destaca que o quilombo \u00e9 uma for\u00e7a de singulariza\u00e7\u00e3o e uma \u00e9tica do cuidado (de si, do outro e do territ\u00f3rio) que se op\u00f5e ao modelo de poder violento e sexista. \u201cA mem\u00f3ria de ser na adversidade nos constitui e que a recupera\u00e7\u00e3o da identidade quilombo, em mem\u00f3ria, hist\u00f3ria e exist\u00eancia, permitiria que cada indiv\u00edduo fosse um quilombo, em seu poder de subjetiva\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Na di\u00e1spora negra encontramos elementos civilizat\u00f3rios que n\u00e3o visam a domina\u00e7\u00e3o, mas modos de rela\u00e7\u00e3o e aspectos culturais desnorteados que guiam as rela\u00e7\u00f5es na diferen\u00e7a: \u201cpara aqueles que sofreram a domina\u00e7\u00e3o colonial [&#8230;], a recupera\u00e7\u00e3o dessa parcela de humanidade muitas vezes passa pela proclama\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p><strong>Curar a Alma \u00e9 um Ato Pol\u00edtico <\/strong><\/p>\n<p>A decolonialidade na sa\u00fade mental exige que reconhe\u00e7amos a sociogenia do sofrimento: as marcas na alma dos sujeitos n\u00e3o s\u00e3o apenas biol\u00f3gicas, mas frutos da opress\u00e3o colonial reatualizada pelo racismo cotidiano. Como ensina Neusa Santos Souza, saber-se negro em um mundo branco \u00e9 viver sob uma identidade muitas vezes massacrada, o que demanda a constru\u00e7\u00e3o de novos ideais de ego e de pertencimento coletivo.<\/p>\n<p>Apostar em uma ci\u00eancia e em um cuidado antimanicolonial \u00e9, enfim, transformar o espa\u00e7o terap\u00eautico em um lugar de recupera\u00e7\u00e3o da humanidade e de despertar para o ativismo pol\u00edtico.<\/p>\n<hr class=\"my-hr-dashed\" \/>\n<strong><i class=\"fa-solid fa-book-bookmark\"><\/i> &#8211; Refer\u00eancias<\/strong><br \/>\n<small><\/p>\n<ul>\n<li>David, Emiliano de Camargo, Vicentin, Maria Cristina Gon\u00e7alves\u00a0and\u00a0Schucman, Lia Vainer (2024). Desnortear, aquilombar e o antimanicolonial: tr\u00eas ideias-for\u00e7a para radicalizar a Reforma Psiqui\u00e1trica Brasileira. Ci\u00eancia &#038; Sa\u00fade Coletiva [online]. v. 29, n. 3<\/li>\n<\/ul>\n<p><\/small><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 se perguntou por que a Reforma Psiqui\u00e1trica brasileira, apesar dos seus avan\u00e7os, ainda encontra dificuldades para lidar com a quest\u00e3o racial?<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":230030,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-229739","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229739","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=229739"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229739\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/media\/230030"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=229739"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=229739"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=229739"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}