{"id":229698,"date":"2026-04-01T11:17:52","date_gmt":"2026-04-01T14:17:52","guid":{"rendered":"https:\/\/redeentrepares.com\/?p=229698"},"modified":"2026-04-06T21:13:16","modified_gmt":"2026-04-07T00:13:16","slug":"descolonizar-o-olhar-por-que-a-saude-mental-no-sul-global-precisa-de-uma-ciencia-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/descolonizar-o-olhar-por-que-a-saude-mental-no-sul-global-precisa-de-uma-ciencia-popular\/","title":{"rendered":"Descolonizar o Olhar: Por que a sa\u00fade mental no Sul Global precisa de uma ci\u00eancia popular?"},"content":{"rendered":"<p>Por muito tempo, a sa\u00fade mental foi dominada por modelos do Norte Global (como o movimento Recovery dos EUA e Europa), que, embora tenham trazido avan\u00e7os importantes como o foco na autonomia e na cidadania, nem sempre d\u00e3o conta das feridas abertas pela nossa hist\u00f3ria no Sul Global.<\/p>\n<p><strong>A Sa\u00fade Mental \u00e9 Pol\u00edtica e Hist\u00f3rica<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto no Norte o foco se voltava para a experi\u00eancia subjectiva individual, no Sul Global os movimentos de utentes nasceram entrela\u00e7ados \u00e0s lutas populares pela redemocratiza\u00e7\u00e3o, contra golpes militares, pelo fim do colonialismo e contra a desigualdade social. Para n\u00f3s, a sa\u00fade mental nunca foi apenas uma quest\u00e3o de \"equil\u00edbrio qu\u00edmico\", mas de direitos humanos e justi\u00e7a social.<\/p>\n<p><strong>O Perigo da \"Exporta\u00e7\u00e3o\" de Modelos <\/strong><\/p>\n<p>Muitos cr\u00edticos alertam que movimentos como o \"Movimento para a Sa\u00fade Mental Global\" (criado em 2008) podem acabar funcionando como uma nova forma de coloniza\u00e7\u00e3o. Ao tentar aplicar f\u00f3rmulas universais baseadas apenas na psiquiatria ocidental, corre-se o risco de ignorar o racismo, os contextos culturais locais e as epistemologias pr\u00f3prias do Sul. Como apontam autores como Cox e Webb (2015), essa transposi\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica pode acabar responsabilizando o indiv\u00edduo pelo seu sofrimento e desconsiderando os factores sociais e estruturais que o causam.<\/p>\n<p><strong>O \"Giro Decolonial\" e a Resist\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Para transformar essa realidade, precisamos do que Nelson Maldonado-Torres chama de \"giro decolonial\". Isso significa descolonizar o conhecimento e reconhecer que estruturas coloniais persistem at\u00e9 hoje, moldando quem vive e quem morre \u2014 o que Achille Mbembe define como necropol\u00edtica.<\/p>\n<p>Frantz Fanon j\u00e1 nos ensinava que indiv\u00edduos \"psiquiatrizados\" muitas vezes s\u00e3o levados a aceitar passivamente normas de sanidade que, na verdade, s\u00e3o formas de aliena\u00e7\u00e3o. Quando transformamos problemas sociais em quest\u00f5es individuais, neutralizamos a capacidade de resist\u00eancia e luta pol\u00edtica. \u00c9 o que Miranda Fricker chama de injusti\u00e7a epist\u00e9mica: o silenciamento das vozes de popula\u00e7\u00f5es marginalizadas por falta de recursos conceituais para que elas se expressem.<\/p>\n<p><strong>Sabedorias que Curam: Bem Viver e Ubuntu<\/strong><\/p>\n<p>A boa not\u00edcia \u00e9 que o Sul Global transborda alternativas poderosas ao paradigma ocidental. Exemplos fundamentais s\u00e3o:<\/p>\n<ul>\n<li class=\"translation-block\"><strong>Bem Viver:<\/strong> enraizado na cosmogonia ind\u00edgena da Am\u00e9rica Latina, foca na interdepend\u00eancia entre seres humanos e natureza, priorizando a colectividade e a dignidade humana sobre os bens materiais.<\/li>\n<li class=\"translation-block\"><strong>Ubuntu:<\/strong> \u00e9tica social africana baseada na premissa \u201cEu sou porque n\u00f3s somos\u201d. \u00c9 uma ferramenta de resist\u00eancia que entende a sa\u00fade humana ligada \u00e0 sa\u00fade da comunidade e do meio ambiente.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Ambas as pr\u00e1ticas promovem o que Boaventura de Sousa Santos chama de uma \u201cecologia de saberes\u201d, onde o conhecimento cient\u00edfico dialoga de igual para igual com o saber popular e ancestral.<\/p>\n<p><strong>Rumo a uma Ci\u00eancia Popular <\/strong><\/p>\n<p class=\"translation-block\">Apostar na decolonialidade na sa\u00fade mental \u00e9 assumir que o conhecimento deve ser um acto colectivo e emancipat\u00f3rio. \u00c9 romper com o \"pensamento abissal\" que invisibiliza quem est\u00e1 do \"outro lado da linha\" e construir uma pluriversalidade de narrativas.<br>No projecto Entrepares, acreditamos que a parceria entre a universidade e o saber popular \u00e9 o caminho para transformar a dor em ferramenta de mudan\u00e7a social, valorizando o sujeito \"sentipensante\" e a for\u00e7a das comunidades.<\/p>\n<hr class=\"my-hr-dashed\" \/>\n<p><strong><i class=\"fa-solid fa-book-bookmark\"><\/i> &#8211; Bibliografia<\/strong><br \/>\n<small><\/p>\n<ul>\n<li>Cox, N., &#038; Webb, L. (2015). Poles apart: Does the export of mental health expertise from the Global North to the Global South represent a neutral relocation of knowledge and practice? Sociology of Health and Illness, 37(5).<\/li>\n<li>Maldonado-Torres, N. (2016). Transdisciplinaridade e decolonialidade. Sociedade e Estado, 31(1).<\/li>\n<li>Mbembe, A. (2003). Necropolitics. In Public Culture (Vol. 15, Issue 1).<\/li>\n<li>Fanon, F. (2018). Em defesa da Revolu\u00e7\u00e3o Africana. International Journal of Physiology, 6(1).<\/li>\n<li>Fricker, M. (2003). Epistemic injustice and a role for virtue in the politics of knowing. Metaphilosophy, 34(1\u20132).<\/li>\n<li>Segato, R. (2021). Cr\u00edtica da colonialidade em oito ensaios: e uma antropologia por demanda. Bazar do Tempo.<\/li>\n<li>de Sousa Santos, B. (2007). Para al\u00e9m do pensamento abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos Estudos CEBRAP, 79.<\/li>\n<\/ul>\n<p><\/small><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea j\u00e1 parou para pensar que a forma como entendemos o &#8220;bem-estar&#8221; e o &#8220;sofrimento mental&#8221; pode estar carregada de uma vis\u00e3o de mundo que n\u00e3o \u00e9 a nossa?<\/p>","protected":false},"author":1,"featured_media":229661,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-229698","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229698","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=229698"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/229698\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/media\/229661"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=229698"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=229698"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/redeentrepares.com\/pt_mz\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=229698"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}