Descolonizar o Olhar: Por que a saúde mental no Sul Global precisa de uma ciência popular?

Descolonizar o Olhar: Por que a saúde mental no Sul Global precisa de uma ciência popular?

Já parou para pensar que a forma como entendemos o "bem-estar" e o "sofrimento mental" pode estar carregada de uma visão de mundo que não é a nossa?

Por muito tempo, a saúde mental foi dominada por modelos do Norte Global (como o movimento Recovery dos EUA e Europa), que, embora tenham trazido avanços importantes como o foco na autonomia e na cidadania, nem sempre dão conta das feridas abertas pela nossa história no Sul Global.

A Saúde Mental é Política e Histórica

Enquanto no Norte o foco se voltava para a experiência subjectiva individual, no Sul Global os movimentos de utentes nasceram entrelaçados às lutas populares pela redemocratização, contra golpes militares, pelo fim do colonialismo e contra a desigualdade social. Para nós, a saúde mental nunca foi apenas uma questão de "equilíbrio químico", mas de direitos humanos e justiça social.

O Perigo da "Exportação" de Modelos

Muitos críticos alertam que movimentos como o "Movimento para a Saúde Mental Global" (criado em 2008) podem acabar funcionando como uma nova forma de colonização. Ao tentar aplicar fórmulas universais baseadas apenas na psiquiatria ocidental, corre-se o risco de ignorar o racismo, os contextos culturais locais e as epistemologias próprias do Sul. Como apontam autores como Cox e Webb (2015), essa transposição automática pode acabar responsabilizando o indivíduo pelo seu sofrimento e desconsiderando os factores sociais e estruturais que o causam.

O "Giro Decolonial" e a Resistência

Para transformar essa realidade, precisamos do que Nelson Maldonado-Torres chama de "giro decolonial". Isso significa descolonizar o conhecimento e reconhecer que estruturas coloniais persistem até hoje, moldando quem vive e quem morre — o que Achille Mbembe define como necropolítica.

Frantz Fanon já nos ensinava que indivíduos "psiquiatrizados" muitas vezes são levados a aceitar passivamente normas de sanidade que, na verdade, são formas de alienação. Quando transformamos problemas sociais em questões individuais, neutralizamos a capacidade de resistência e luta política. É o que Miranda Fricker chama de injustiça epistémica: o silenciamento das vozes de populações marginalizadas por falta de recursos conceituais para que elas se expressem.

Sabedorias que Curam: Bem Viver e Ubuntu

A boa notícia é que o Sul Global transborda alternativas poderosas ao paradigma ocidental. Exemplos fundamentais são:

  • Bem Viver: enraizado na cosmogonia indígena da América Latina, foca na interdependência entre seres humanos e natureza, priorizando a colectividade e a dignidade humana sobre os bens materiais.
  • Ubuntu: ética social africana baseada na premissa “Eu sou porque nós somos”. É uma ferramenta de resistência que entende a saúde humana ligada à saúde da comunidade e do meio ambiente.

Ambas as práticas promovem o que Boaventura de Sousa Santos chama de uma “ecologia de saberes”, onde o conhecimento científico dialoga de igual para igual com o saber popular e ancestral.

Rumo a uma Ciência Popular

Apostar na decolonialidade na saúde mental é assumir que o conhecimento deve ser um acto colectivo e emancipatório. É romper com o "pensamento abissal" que invisibiliza quem está do "outro lado da linha" e construir uma pluriversalidade de narrativas.
No projecto Entrepares, acreditamos que a parceria entre a universidade e o saber popular é o caminho para transformar a dor em ferramenta de mudança social, valorizando o sujeito "sentipensante" e a força das comunidades.


– Bibliografia

  • Cox, N., & Webb, L. (2015). Poles apart: Does the export of mental health expertise from the Global North to the Global South represent a neutral relocation of knowledge and practice? Sociology of Health and Illness, 37(5).
  • Maldonado-Torres, N. (2016). Transdisciplinaridade e decolonialidade. Sociedade e Estado, 31(1).
  • Mbembe, A. (2003). Necropolitics. In Public Culture (Vol. 15, Issue 1).
  • Fanon, F. (2018). Em defesa da Revolução Africana. International Journal of Physiology, 6(1).
  • Fricker, M. (2003). Epistemic injustice and a role for virtue in the politics of knowing. Metaphilosophy, 34(1–2).
  • Segato, R. (2021). Crítica da colonialidade em oito ensaios: e uma antropologia por demanda. Bazar do Tempo.
  • de Sousa Santos, B. (2007). Para além do pensamento abissal: Das linhas globais a uma ecologia de saberes. Novos Estudos CEBRAP, 79.

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